Cadernos Especiais / Suplemento Literário
Aidenor Aires
Aplaudido pela crítica nacional, o poeta Aidenor Aires, nascido na Bahia e goiano de coração, mas, o0 que importa, sobretudo, é a sua nacionalidade: brasileira. Reconhecido como grande poeta, usa da palavra como arma para atingir sua voz sendo alvo o leitor, amante das letras. Diga-se de passagem, leitura agradável, lírica, e de grande sensibilidade, alcança a beleza na variedade temática e na reflexão dos textos bem elaborados do início ao final do livro O dia frágil.
O poeta nasce poeta, segundo lição de Eliot, mas tem que aflorar talento, emoção, sensibilidade, cultura e domínio com a palavra, fato marcante na arte poética de Aidenor Aires, que esbanja vasto conhecimento da literatura universal, em especial a poesia clássica de nossos grandes mestres do passado. Percebe-se, ainda, na revalorização dos temas já muito usados pelos nossos poetas, mas, isso não desmerece o trabalho do autor, ao contrário, a inquietação do homem na sua solidão, inquirições, amor, ódio, angústia e alegria estão presentes no trabalho literário, com beleza telúrica de a Alegria do pássaro, que abre o livro, verdadeira luz que ilumina a inteligência do autor: "A alegria do pássaro / não contempla o silencioso perecer das frutas. / Aí impera a torrente irmã / e as estrelas decíduas. / Luz sem raiz devassando escuros. / O poeta carrega a paixão exilada de um deus. / Sobre encrespada onda murcham os dias inocentes do calendário cego. / O poeta carrega a música do mundo. / Colhe andrajos da luz / com que um deus se exprime. / E no aconchego de pá, coagulo, evento, / goza o eterno / na angústia do dia frágil / que a redime."
Por sua convivência com as cores nas narrativas poéticas e o contato pessoal com bons artistas plásticos de Goiás, Aidenor Aires, achou por bem, prestar honrosas homenagens aos pintores da terra, com a liricidade e linguagem própria, deixa transparecer em belas páginas com fluência expressiva, servindo do encaminhamento do verdadeiro instrumento linguístico da criação poética. A emoção frente à arte pictórica, fez com que o autor esbanjasse a beleza da arte e o ofício de versejar. A exemplo, vejamos o poema Antônio Poteiro: "Ah! velho mago, / enfeitiçaste o barro! / Bom e antigo barro / que sonhava ser cova de semente / e corpo de tijolo. / Ao teu toque / e riso de Merlim caboclo /o barro se fez glória, /o barro se fez riso, / o barro se fez dor."
Sua poesia flui das lembranças que o acompanha, quer a infância, aventuras do dia-a-dia, a intimidade com os índios da América do Sul, em especial do Equador, onde conheceu de perto o sentimento e o canto da palavra e as dores do filosofal daquela gente. Poesia forte, denunciadora, transcende a temática usual, as expressões estilísticas, as formas e as técnicas estruturais que embelezam o fazer poético. Em um dos seus belos momentos externa a reação ao ver estampado nas linhas dos jornais o fato fatídico do assassinato de um índio em Brasília, assim dedica um Haicai ao nosso irmão em chamas: "Planalto. Alvorada. Oh, Pindorama! / E Brasília amanhece ... / Um índio em chama."
À luz desse trabalho literário, o presente livro sem retoques, instiga a reflexão na rica vivencia de Aidenor Aires no seu reencontro espiritual, na eloquência e sábia forma do manuseio com as palavras. O dia frágil não é apenas uma obra poética para ser lida, mas sobretudo sentida, saboreada, que privilegia o leitor na sedução de cada poema, de cada palavra e de cada sonho.
Parabéns, poeta, e que Deus lhe de muita luz no seu caminho, na beleza da arte e ofício de versejar.
Coelho Vaz Ocupante da Cadeira nº 36 na AGL
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