Cadernos Especiais / Suplemento Literário

Identidade goiana

26 de Julho de 2010 |

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"É ignorar serras, cachoeiras e cerra dos, serenando sol e raios na aurora original do amanha."
Ouvi de uma pessoa, dessas vindas da terra do sabe tudo, que não existe identidade goiana, que a globalização acabou com as diferenças entre as nações e, sobretudo, entre as regiões de um mesmo país. Fiquei estarrecido e indignado. Estarrecido, pela impropriedade da afirmação, e, indignado por se tratar de uma posição leviana, destituída de integral conhecimento do Estado de Goiás e dos diferenciais ontológico e cultural de seu povo. Sinto-me bem a vontade para defender o sentimento e a identidade goianas, porque aqui cheguei e me tornei goiá, exatamente por incorporar tudo que compreende a goianidade.
Interrogo a quem compartilha com essa atitude que visa à destruição dos valores que conformam o ser de um povo: como não haver identidade goiana, se o simples fato de se nascer em um território implica sua inerente adoção como espaço vital, responsável pela travessia do não ser para o ser e do ser para o não ser? Como não existir goianidade, se quem se planta a terra, particularizada principalmente pela casa, edifica um espaço sagrado, singular e único que o protegera como ser, ôntica e ontologicamente diferenciado? Como não haver identidade goiana, se existem pessoas que construíram uma história que se estende ao torrão natal, ao povo e, sobretudo, as individualidades, entendidas como componentes diferenciadores do ser e, notadamente, da essência que o habita?
Como não existir identidade goiana, se até aspectos de linguagem que determinam a essência do falante são notados na expressão genuína de Goiás entre os demais falantes do país, uai? Não haver o goiano e o mesmo que se dizer que não há o gaúcho ou o paranaense, que possuem sotaques típicos que lhes conferem identidade! Não haver goiano seria o mesmo que dizer que não há um componente linguístico próprio do Ceará ou do Rio Grande do Norte! Não há nada mais peculiar a um povo que a língua e o modo de seu idioma. O pior é que ouvi essa assertiva de um antropólogo não sei se (de fraque ou se de araque), que deveria entender de etnologia. Mas não basta o ethnos, é imprescindível compreender o ethos: os alfenins de Vila Boa, o arroz com pequi, com guariroba, o empadão ... E, antes de tudo, aquele orgulho pelas coisas da terra, a ponto de dar um boi para não entrar na briga por ser goiano e uma boiada para não sair dela, enquanto não convencer de que se é no "pé" ou na fala que peleja o ser.
Crer a inexistência do goiano é não conhecer o ciclo das tropas e das boiadas e o que ele representou para a terra e para a cultura, tão bem cristalizadas em Tropas e Boiadas! É desconhecer os Cavalinhos de Platiplanto e as fazendas por que eles caminham no sonho criança que aqui nasce, cresce e chega à idade do homem. É nunca ter ouvido falar de Piano e sua enxada de pele, osso e unhas furando o solo e os olhos de Santa Luzia, para cumprir a ordem do Coronel! É ignorar o saci penetrando as entranhas do mapa que se foi, é e será na memória e na retina de quem vê e enxerga o território e suas fronteiras. É desprezar o não da noite, pirenopolando artes e mouros no abraço das idades. É não saber o ser do goiano apreciando o clássico e o moderno nas telas e na música que conjuga harmonicamente erudito e caipira na sinfonia das águas. É não entender a areia dourando a serra e os casarios colorindo a estética Goiandira e seus licores. É ignorar casa velha namorando a ponte e a lapa que lê os becos e o país de Cora. É ignorar serras, cachoeiras e cerrados, serenando sol e raios na aurora original do amanhã. É negar a arte primitiva fechando o tempo poteiro na apoteose dos karajás. E nunca haver visto e sentido o fogaréu da procissão, nem invocado as preces do amor na igrejinha do morro ao anoitecer. É se esquecer dos dedos em vitória no museu da boa arte. É nunca haver ouvido e visto as noites rimando em trovas, beijos e juras na canção esmerada do Meia Ponte. É desconhecer c vermelho pôr do sol araguaiando garças e tuiuiús. É ignorar as pedras e a água pintando o tempo nas telas do Vale da Lua. É ser frio às águas que esquentam os pés da serra e dos homens escorrendo rio abaixo, rio acima, o rio ... É não  ter tido um amor na vida, que lhe ensina a cantar a sua cidade, seu sonho, seu lar ...
É negar o Pedro e a pedra que fizeram Goiânia contrariando nomes e sobrenomes arraigados na linha genealógica do rio avermelhando muitas imagens, inclusive a de Anhanguera ardendo as fontes para intimidar aqueles que se sacrificaram para que outro goiá nascesse e crescesse nas ima(r)gens do sonho. É esquecer-se do chão atapetando o vermelho na terra flamboyant
É não saber que goianidade é um sentimento nascido do profundo ser de quem sente e vive Goiás, pois ser goiano é saber que nasceu na Terra; mas que, na imensidão de seus espaços, Goiás é seu lar. Goianidade é uma amizade perceptível apenas por quem é capaz de entender, amar e ouvir Goiás!

José Fernandes Ocupante da Cadeira n.º 21 na AGL

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