Cadernos Especiais / Suplemento Literário
O rumo inesperado de madame Liólio
"... cada filho que ganhava o mundo era um pique apertando as correias das percepções do existir."
Ela, sim. É que era mulher feliz. Pelo menos era invejada por dez de cada dez mulheres de Mundocaia.
Consuelo Abadia Liólio, mulher de empresário monopolista, mãe de quatro filhos saudáveis e inteligentes, patronesse das mais badaladas festas do hight society. Era o que Ibrahim Sued convencionou chamar de "locomotiva". Por onde ia, arrastava todo mundo, ditando a tendência da moda. Só pra se ter ideia da força de sua liderança, certo dia ela apareceu a uma festa com um rasgão acidental na meia, na perna direita. Na festa seguinte, - pasmem! - suas súditas, sem exceção, circulavam galhardamente, ostentando suas meias rasgadas, a lá madame Liólio.
No tempo devido, os filhos, um a um, foram se casando, como uma coisa natural. Na mesma ordem em que nasceram. Obviamente com as moças mais cobiçadas. Não do lugar. Tinham o capricho de importar as mais belas beldades da Capital, que Mundocaia talvez não tivesse moçoilas a altura de seus rapagões. Cada enlace, um acontecimento, uma festa de arromba de ficar na memória pro resto da vida.
No entanto, cada filho que ganhava o mundo era um pique apertando as correias das percepções do existir. A noção de refúgio vazio, de vida sem sentido aterrava sua alma com a força dos deslizamentos de terra. As festas, que antes lhe proporcionavam alegria, eram agora verdadeiros tormentos.
Ao mesmo tempo em que as emoções eram esburacadas pela tristeza sem conta, os hormônios cuidavam de redistribuir suas carnes e banhas em proporções nada complacentes. As ancas bem esculpidas foram se esvaziando, subindo para a corcunda, as omoplatas e os úberes. A barriga avolumou-se com banhas vindas sabe-se lá de onde.
Foi então que chegou a vez da filha caçula se casar. Para aumentar o desgosto já reinante, ela enoivou-se com um empregado subalterno de uma das empresas do pai. O sujeito pardavasquinho, sem eira nem algibeira, trabalhava no curtume, na lida de couros, e deles portava o fedor impregnado.
Madame Lió1io tentou de tudo para remover da filha o propósito de desposar-se com o camaradinha. Mas para ela, nada servia, a não ser o casório, no dia e lugar já combinado, com o sujeito com odor de curtume e tudo. Mas na noite da véspera, a mãe chamou o que era pra ser genro e com ele teve uma conversa reservada, em local neutro, fora da vigilância familiar. Ninguém sabe exatamente do que trataram.
Só se sabe que na noite seguinte, convidados a postos, festança preparada, o noivo não compareceu, nem madame Liólio foi vista. Sem genro, sem sogra, sem casório, a euforia da festa foi se convertendo em lágrimas, decepção e tititi. Para sorte dos azarados, as quitutes e acepipes foram servidos no outro dia em abrigos de idosos e crianças enjeitadas.
Tempos depois, correu a assombrosa notícia de que a ex-futura sogra foi vista com a ex-futuro genro levando vida selvagem nas cavernas, entre morcegos e bichos ferozes, na região de montanhas e cânions, da reserva de Bamberra.
Edival Lourenço Presidente da UBE-GO
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