Editorias / Opinião
A TV Brasil - Alaor Barbosa
Eu queria falar imediatamente sobre algumas ideias e observações que me ocasionaram uma enriquecedora palestra do senador Cristóvão Buarque a respeito do tema que lhe é tão caro: o educacionismo. Assisti a ela semana passada na casa da União Planetária – uma instituição benemérita criada por Ulisses Riedel aqui em Brasília há alguns anos, localizada no Lago Norte. Cristóvão Buarque vem sendo, há muitos anos, o que se pode chamar, apelando-se para um chavão (que neste caso se impõe), um “apóstolo da educação no Brasil”. Sua luta já produziu ao menos um resultado concreto importante: a Bolsa Escola. Foi ele quem a criou, quando governador do Distrito Federal. Infelizmente a Bolsa Escola, ao ser encampada pelo governo federal, se ampliou para Bolsa Família e, com isso, perdeu a característica essencial de destinar-se estritamente ao incentivo da instrução escolar. Espero que, no governo Dilma Roussef, a Bolsa Escola venha a recuperar essa característica original.
A luta de Cristóvão Buarque em favor da educação no Brasil tem sido constante e incansável. Em outra ocasião falarei desse tema – a luta de alguns brasileiros em favor da educação no Brasil. Ele me é muito caro também. Só gostaria de antecipar a observação, que em outra ocasião vou aprofundar um pouco, de que os educacionistas em nosso País têm sofrido duplamente: indiretamente por não verem, no mais das vezes, suas ideias e propostas colocadas em prática; diretamente por sofrerem perseguições e proscrições ignominiosas. Estou pensando principalmente nos casos de Anísio Teixeira, Paulo Freire e Darcy Ribeiro – inteligências criadoras que, em vez de devida e completamente aproveitadas, se viram rejeitadas durante muito tempo.
Porque tenho pressa de falar de outro assunto, adio para outra ocasião esse do educacionismo no Brasil.
O assunto de hoje é a TV Brasil. Neste último fim de semana assisti a diversos programas da TV Brasil. Fazia um certo tempo, mais de um ano, que eu num sintonizava nessa emissora. Confesso que sentia um certo desânimo de encontrar nela a emissora pública de boa qualidade que eu acho indispensável ao Brasil e que eu havia esperado, ao ser criada, que ela viesse a ser. Foi muito positiva a constatação que fiz agora. A TV Brasil já vai se configurando e constituindo como uma emissora de televisão pública de elevadíssima qualidade cultural e mesmo técnica. Os programas são ótimos. Vou apontar alguns, mas a título meramente exemplificativo. Na série “Presidentes da América Latina”, produzida pela televisão pública argentina e veiculada pela TV Brasil, assisti a um programa muito bom sobre o novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo. Está anunciado, para esta semana, um programa sobre o presidente do Equador, Rafael Correia. O programa “Cá e lá” é extremamente rico de informações. A linda e competente repórter Aline Advedev (se num erro no nome) vem fazendo reportagens reveladoras sobre a África – o que eu vi foi sobre a África do Sul; e há um anunciado para esta semana sobre o Zimbawe. A cultura brasileira do interior vem encontrando na TV Brasil a devida guarida: o programa de Inezita Barroso em homenagem a Tonico e Tinoco foi primoroso. Também primorosa (e comovedora), a reportagem sobre as lavadeiras-cantadeiras de Almenara, na região do Rio Jequitinhonha. Eu poderia mencionar vários outros programas muito bons. Mesmo os programas esportivos se apresentam com virtudes novas e diferentes, em comparação com os da emissoras comerciais: foi o caso da “África 2010”, que focalizou a Copa do Mundo, feito de modo um tanto original. (Saliente-se nele a extrema formosura e simpatia da repórter Luíza Scheliga.)
É de televisão assim que o povo brasileiro precisa, para se desasnar e se informar e se instruir e se desenvolver e se divertir de modo nutritivo. Você pode passar o dia inteiro diante da tela que num estará perdendo seu tempo.
De parabéns, portanto, a jornalista Teresa Cruvinel, cujo trabalho começa a apresentar frutos concretos, visíveis, positivíssimos. Espero que a TV Brasil se dirija mais decididamente no rumo de refletir a cultura e a realidade brasileira das várias regiões do interior. Para tanto, além dos estúdios já instalados em Brasília, em São Paulo e no Rio, convém criá-los e instalá-los também, e dotados do mesmo poder gerador, ao menos em Recife, Fortaleza, Natal, Belém, Manaus, Cuiabá, Campo Grande, Goiânia, Curitiba e Porto Alegre. É preciso que a televisão pública brasileira, pluralizando-se e diversificando-se, espelhe o Brasil todo e perca a ênfase que ainda se dá à cultura carioca, cuja hegemonia já é tempo de superar no Brasil. Quem sabe se, assim se comportando, ajude o Brasil a se desfazer da sua completa americanização em alguns segmentos culturais, conforme documentado, lamentavelmente, no programa “Segue o Som” – que mostra um tipo de música negra, no Brasil, como uma extensão da mesma música negra dos Estados Unidos.
Alaor Barbosa é jornalista e advogado, é autor do volume de quatro livros intitulado Contos e novelas reunidos e dos romances Belinha: uma lenda; Vozes e silêncios em Imbaúbas; A morte de Cornélio Tabajara; Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia; Eu, Peter Porfírio, o maioral. Membro da Academia Goiana de Letras
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